[Crítica] Martyrs (2008)




Na época em que estreou, o filme francês Martyrs foi muito comentado entre quem gosta dos gêneros de terror e gore. Mas também chamou atenção entre quem não é fã dos gêneros – me encaixo aqui. Mas, calma, esse texto traz alguns spoilers e talvez você prefira assistir ao filme sem saber deles.

O filme nos mostra uma seita que caça mártires. O que são mártires? São pessoas que, quando são submetidas a uma situação de extrema violência, chegam a níveis impensáveis, suportam a dor e entram numa nova dimensão de existência, que se define como “além do limite da vida” e que “não é a morte”. A seita tira fotos da expressão dessas pessoas no momento de dor extrema, mas ainda vivas. Eles procuram aquele momento que fica entre a vida e a morte, entre a dor e o alívio. Mademoiselle (Catherine Bégin) passou toda sua vida tentando produzir um mártir.

Com essa definição e a busca do mártir, já dá para imaginar que o filme é um prato cheio para quem gosta de gore, não é? E a expectativa é atendida.

Os três atos do filme são bem definidos. No primeiro, acompanhamos a infância e como isso criou o desejo de vingança da personagem principal, Lucie (Mylène Jampanoi). Ela fugiu de um cativeiro quando era criança. Lá, ela sofria abusos. Após a fuga, foi para um orfanato e conheceu Anna (Morjana Alaoui). O laço das duas é bem forte e segue assim durante toda a vida.

[Crítica] Martyrs (2008)

Adulta, Lucie ainda sente seus traumas de infância e nutre o desejo de vingança pelos abusadores que destruíram sua vida. E sua vingança é executada com extrema brutalidade. Após se vingar, Lucie pede a ajuda de Anna no local e as duas tentam limpar toda a casa do cenário de matança.

Já o segundo ato tem um pé no terror, e ele é o mais rápido dos três. O foco é a tortura, tanto física quanto psicológica. Vingança realizada, os problemas deveriam terminar, não é? Não. O filme faz com que a gente se pergunte se, na verdade, Lucie não enlouqueceu após viver em cativeiro e não está vendo coisas que não existem.

Ela vê uma mulher morte e é “agredida” por ela, mas logo descobrimos que a sua visão era de uma vítima do cativeiro da infância de Lucie que ela viu e deixou para trás no momento de sua fuga. E a culpa que sentia por isso a fazia machucar seriamente o seu corpo. Ao notar que sua amiga não acredita no que ela diz ver, Lucie fica desiludida e se suicida. Isso, a até então protagonista sai de cena ainda no segundo ato. Senti durante parte do filme um ar de terror japonês.

[Crítica] Martyrs (2008)

E o terceiro ato é onde fica o verdadeiro gore. E, claro, tem Anna como protagonista. Ela descobre uma passagem para o porão e entende sobre o que sua amiga falava. Anne passa a ser testada como mártir e é levada até o último estágio de sofrimento. Há uma cena, por exemplo, em que a pele da personagem é quase completamente removida. Sobra apenas a pele de seu rosto. Praticamente sem pele, ela é colocada para sofrer com queimaduras ultravioleta. Tudo por aquela busca de “pureza extrema” e do limite entre a vida e a morte.

Após tamanha tortura, Anna parece ver aquilo que a seita procura. Nós não sabemos o que ela viu. Vemos apenas uma luz forte. Mas Mademoiselle pergunta o que ela viu, e ela conta. Mas nós não ouvimos. Mademoiselle fica impressionada e convida todos da seita para contar sobre sua descoberta e o que há na quase-morte.

[Crítica] Martyrs (2008)

Então chegamos na ótima cena final de Martyrs. Ela é dúbia, esperta e irônica. A “grande questão” não é respondida. A nossa dúvida, e a de todos, com exceção da Mademoiselle, continua. Ela se prepara no banheiro para encontrar os demais. Um ajudante vai chamá-la, avisando que todos chegaram, e pergunta se ela irá contar o que ficou sabendo. Ela pergunta se ele tem curiosidade em saber, mas pega uma arma e se suicida. E assim o filme termina. Por que ela se suicidou? O que ela descobriu? Ela ouviu algo bom? Ou algo ruim e ficou desolada?

Se você é fã de terror e ainda não assistiu Martyrs, pare tudo agora. Ele é obrigatório para amantes do gênero. E se não é fã, mas quer ver algo do gênero, esse é altamente recomendável; o filme do diretor Pascal Laugier e e qualidade e usa as características do terror e do gore de forma eficaz. Mas não vá assistir pensando que esse é um filme fácil.

Nota: 4/5

– O filme ganhou remake norte-americano em 2016 com as atrizes Troian Bellisario e Bailey Noble. Confira a crítica do remake de Martyrs AQUI.