[Crítica] A Garota do Livro (2015)

Em A Garota do Livro, Alice é uma assistente editorial apaixonada por literatura. Tudo que deseja, ao que parece, é descobrir escritores talentosos e publicá-los, ainda que sua posição na empresa não permita que ela chefie a edição completa de um livro.



Essa é a primeira questão a que somos apresentados. Com o desenrolar do filme, muito do que está submerso na premissa vai se revelando com imensa maestria de condução da diretora Marya Cohn (que antes apenas realizara um filme sem expressão alguma – “Light Sleeper”, e um curta com Natalie Portman).

A diretora de A Garota do Livro encanta com cenas repletas de informação visual que nos permite formular sobre o psicológico dos personagens ou apenas apreciar apuro estético do filme.

Por tratar de um assunto mais pesado, que é tratado como segredo na obra, a direção opta também por revelar muito pouco da personagem principal e das satélites, criando um clima envolvente e muito humano, pois deixa para o espectador a escolha de oferecer compaixão à personagem. Outro trunfo do filme são as atuações.

Alice aparece em dois momentos de sua vida. Num deles, está para completar trinta anos e se mostra frustrada na profissão e em sua ambição de se tornar escritora; noutro, no passado, com quinze, acompanhamos o amadurecimento apressado da menina que se interessa por transformar em ficção literária as angústias que sente em sua rotina adolescente (embora adolescência e angústia a essa altura já pareçam um pleonasmo).

Emily VanCamp (Revenge, Everwood) faz a Alice adulta. Sua contenção e ódio transfigurado em fuga autodestrutiva comove, ela constrói um personagem muito vivo. Mas o prêmio mesmo fica com Ana Mulvoy-Ten, que faz a adolescente.

A Alice de quinze anos inicia uma relação de mentor-pupila com um escritor dinamarquês (interpretado por Michael Nyqvist). Aqui podemos ver com clareza todas as nuances de uma adolescente que pretende se mostrar adulta, que carrega no rosto uma altivez frágil, que se desmancha quando compartilha detalhes de sua rotina e quando se sente vista, enxergada. É mesmo uma surpresa que uma atriz tão jovem consiga emular tão bem esse caldeirão de sensibilidade. A surpresa é maior, porém elucidativa, quando descobrimos que a atriz inglesa Ana Mulvoy-Ten já tem vinte e quatro anos. A Garota do Livro faz um belo trabalho de recriação de sua figura, ela convence como uma garota de quinze.

A obra de Marya Cohn é uma pequena joia; desses filmes que você não vai ver sendo badalado por aí, mas que traz ao espectador atento uma bela experiência estética, bastante enriquecimento, além de tratar assuntos tão urgentes como o feminismo, o local da mulher num mundo profissional ocupado por homens, de forma tão bonita. Imperdível.

Nota: 4/5