[Crítica] Divertida Mente (2015)

[Crítica] Divertida Mente

O filme de animação indicado ao Oscar na mesma categoria Divertida Mente apenas reafirma o nível de qualidade que a Pixar tem entregado ao público desde a sua fundação. Este é o tipo de filme que se pode chamar, com tranquilidade, de obra perfeita. Principalmente porque calcado em fórmulas (mas sempre dando-lhes novos ares) comprovadas, o filme consegue encantar e mesmo elevar o espectador. Para as crianças então… o filme é, sem dúvida, edificante. 

A força de Divertida Mente está em seu roteiro, escrito por Pete Docter (também responsável pela joia Wall.E) e Ronnie Del Carmen (que, com Docter, nos entregou Up). O filme se concentra na vida de Riley; mais especificamente em sua vida sentimental, que é governada por um grupo adorável de, digamos, “funcionários do sistema límbico” da menina. 

A responsável pela emoção da Felicidade é Joy (Amy Poehler). Quando Riley nasce, logo percebemos que quem manda em tudo é Joy; é ela quem separa as lembranças, quem coordena os outros funcionários, a saber: a Tristeza (Phyllis Smith) , o Medo (Bill Hader), a Raiva (Lewis Black) e a Nojinho (Mindy Kaling), quem, em suma, mantém o trem andando. O filme é muito inteligente ao traduzir sutilezas sentimentais humanas em simples momentos de trabalho de uma equipe que, do cérebro da garota, faz com que sua vida sentimental se desenvolva adequadamente. 
Tudo começa a dar errado, no entanto, quando os pais de Riley decidem se mudar para a cidade de São Francisco. A estranheza que ela sente em relação ao novo lugar e a falta dos amigos é o suficiente para tirá-la completamente dos eixos. Como se isso já não fosse bastante, a mãe pede dela que seja forte e que mantenha um sorriso no rosto em vista de tantas mudanças, esforço esse que teria a intenção de suavizar a transição e deixar o pai à vontade para se dedicar ao novo emprego.
A obra acerta em cheio ao focar como as pessoas, à medida em que vão crescendo, apostam cada vez mais nas emoções falsas, no fingimento, para governar suas vidas. Ao tentar manter um semblante de falsa alegria, de uma coragem pálida, Riley começa a entrar em parafuso. O espectador acompanha esse processo ao ver os funcionários do sentimento absolutamente perdidos no cérebro da menina. Da noite para o dia, tudo ali parou de fazer sentido. Todas as lembranças que tinham base feliz (amarelas), agora já não são assim; começam a vir na cor azul (cor da tristeza e melancolia por excelência). 
Joy, empenhada em mudar o rumo das coisas, acaba travando uma jornada impressionante nas emoções e percepções de Riley – o que garante também o aspecto de aventura do filme. Ao cair num tubo de memória e se perder completamente, ela vai acompanhada da Tristeza ter de encontrar um caminho de volta ao cérebro, pois se ela não está lá Riley não pode ser feliz. 
O filme é de uma sensibilidade comovente. Acerta com precisão na tradução de emoções humanas, constrói personagens extremamente cativantes e dosa bem um assunto que poderia ser entendido como adulto para as crianças, tratando-as assim com admirável respeito. Talvez a maior sacada da obra seja mostrar, ao entrar também na cabeça de adultos, como se opera na vida das pessoas um abandono das emoções que devem reger a vida. Quem governa a mãe, por exemplo, é a tristeza, e todas as outras emoções se comportam um tanto como a Tristeza: passivas, comedidas, um tanto desencantadas. É um momento grandioso, de beleza radiante, a cena do jantar em família em que cada membro está preso em seu mundinho e emoções paralisantes, incapazes de se comunicar de verdade uns com os outros. 
Para os adultos, fica a mensagem de que a tristeza é uma emoção, um sentimento, que precisa também ser trabalhado, reconhecido. Nesse sentido, o filme funciona como crítica social. Vivemos em tempos de tratar a tristeza como sinal de fraqueza. Isso no melhor dos casos, porque geralmente ela é tida como doença, ou sinal de uma das milhares de fobias que a cultura psicologizante inventou. Um filme sensível e sutilmente profundo que merece indiscutivelmente seu Oscar.
Nota: 5/5