[Crítica] A Bruxa (2015)




Que boa surpresa. Se você está procurando um filme de terror cheio de sustos e sangue, melhor escolher outra opção para assistir. Em A Bruxa, o terror está nos detalhes, está na sua atmosfera.

A história se passa na Nova Inglaterra, no ano 1630. Somos apresentados a uma família muito religiosa que foi banida do vilarejo onde morava. A nova casa fica no meio da floresta. Enquanto estava brincando com sua irmã mais velha, Thomasin (Anya Taylor-Joy, que está ótima), o recém-nascido simplesmente some de forma misteriosa. E a partir daí diversas outras coisas misteriosas acontecem.

O ritmo do filme é lento, os personagens são apresentados e aprofundados sem pressa. E é a repressão sufocante e o fervor religioso cego que ajudam a criar a atmosfera de medo do filme.

E Thomasin é o centro de tudo. Sua interpretação forte tem a verdadeira fonte de terror do filme. A gente sabe que há uma bruxa nas sombras da floresta, mas são as ameaças, sejam reais ou imaginárias, que são mais assustadoras. Um dos maiores terrores de A Bruxa é o fato que a nossa família pode se virar contra nós, e isso pode acontecer por razões que estão totalmente fora de nosso controle.

Além de Thomasin, há a sua mãe, que começa a nutrir ódio pela filha e culpá-la pelo desaparecimento do recém-nascido, e que fica perturbada porque o bebê ainda não havia sido batizado. Há os gêmeos Mercy e Jonas (Ellie Grainger e Lucas Dawson) que são bem desobedientes; a menina, inclusive, em certo momento começa a culpar Thomasin e aumenta a perturbação de sua mãe… E apesar de culpá-la, são os dois que conversam com o bode preto, a quem chamam de Black Phillip.

Maçãs envenenadas, sangue no balde de leite, corvos picando os seios… Essas são algumas das imagens marcantes do filme. Mas o diálogo também merece atenção. No final, descobrimos que os diálogos do filme foram todos inspirados em documentos reais da época.Esses documentos contavam com relatos sobre fenômenos que foram considerados bruxaria por juízes da época. Mas também foram adicionados elementos de contos de fadas à narrativa.

Perguntado sobre se começou a acreditar em bruxas após suas pesquisas, o diretor Robert Eggers disse que “se uma sociedade inteira acredita em algo, aquilo existe”. Lembrou que atualmente não se acredita em bruxas, mas há o “medo do poder feminino e o processo de transformá-lo em algo obscuro e mal”. Em tempo: o estreante diretor Robert Eggers ganhou prêmio de melhor diretor no Festival de Sundance.

O corpo de Thomasin está começando a mudar por causa da puberdade e seu irmão não deixa de reparar. Sua família percebe isso, seus pais conversam aos sussurros sobre formas de se livrar dela e em certo momento sua mãe a acusa de se insinuar para o seu irmão mais novo. “Você gostaria de viver deliciosamente? Para ver o mundo?” perguntam para Thomasin. E assim o filme entra em sua cena final, em seu clímax angustiante. Com tanta sugestão e tensão subentendida, a última cena pode incomodar alguns por ser mais explícita. Mas ela não diminui a grandeza do filme.

A Bruxa consegue fugir bem dos clichês de seu gênero. O filme explora o medo do desconhecido e a culpa como resultado do fundamentalismo religioso. O bode é o demônio? E bruxa? Thomasin é a bruxa? O que tudo isso significa? Esse filme conseguiu assustar Stephen King, que virou fã de Robert Eggers. Precisa de mais?

Nota: 4.5/5